Aprendizado para todos e tolerância ao erro

Francine Graci, diretora de career experience do Twitter na América Latina e no Canadá, analisa o novo normal do trabalho, a relação profissionais-empresas que surgiu com a Covid-19 e projeta como serão as lideranças do futuro

Débora Yuri

16 de março de 2021

FRANCINE GRACI
Integrante da equipe do Twitter desde 2013, quando a empresa abriu seu escritório no Brasil, atualmente é diretora de career experience para a América Latina e o Canadá. Responsável por manter a cultura organizacional da companhia, lidera a área de treinamentos e desenvolvimento dos profissionais atuantes na plataforma digital nessas regiões. Formada em Administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV), cursou quatro anos de direito na Universidade de São Paulo (USP) e já trabalhou em empresas como Itaú Unibanco, TIM e EDS — Electronic Data Systems, e nas consultorias Lee Hecht Harrison, Boulos Consulting Group e Fesa Group.

Nunca a tecnologia foi tão essencial como durante a pandemia. Ao mesmo tempo, uma das grandes empresas do setor investiu como nunca na humanização do negócio. Para promover avanço de representatividade na força de trabalho, o Twitter lançou um programa global de contratação inclusiva. Ele estabelece, entre outras, a meta de ter pelo menos metade do quadro total composto por mulheres até 2025. No mesmo período, elas deverão ocupar 41% dos cargos de liderança e 42% das funções técnicas. No quarto trimestre de 2020, o gênero feminino respondia por 42,6% dos funcionários e 38,2% dos líderes. Relatórios mostram ainda que um em cada três profissionais participa de ao menos um grupo de afinidade da companhia, como mulheres, negros e comunidade LGBTQIAP+. Meio & Mensagem conversou com Francine Graci, diretora de career experience do Twitter na América Latina e no Canadá, que analisou o novo normal do trabalho, a relação profissionais-empresas que surgiu com a Covid-19 e projetou como serão as lideranças do futuro.

Meio & Mensagem — Para você, qual será o impacto da pandemia no futuro do trabalho? Quais tendências são irreversíveis?
Francine Graci — A pandemia criou uma oportunidade excepcional de aprendizado para todos, de inovar, ter mais agilidade na resolução de problemas, ter equipes mais diversas e colaborativas, dominar novas tecnologias, fomentar um ambiente de experimentação e tolerância ao erro. Acreditamos na força de trabalho descentralizada e na tendência de aproveitar suas vantagens: descentralizando, você consegue diversificar os times, quebrar barreiras geográficas. Globalmente, queremos ter uma força de trabalho distribuída, ou seja, ter funcionários onde não existem escritórios do Twitter. Outra palavra-chave é flexibilização. Com flexibilidade você evita deslocamentos, impacta menos o ambiente, diminui o estresse dos colaboradores. Em eventos de RH, falava-se que tudo isso ia acontecer em 10, 15 anos. E, de repente, aconteceu tudo de uma vez.

M&M — Em relação a captar talentos, competências e habilidades mais valiosas mudaram? Quais são as principais características que o Twitter busca em seus colaboradores?
Francine — Existem algumas qualidades essenciais. Buscamos pessoas capazes de aumentar o impacto que temos como empresa. Pessoas capazes de ouvir, mas ouvir de verdade, com empatia. Que tenham curiosidade, sejam proativas, busquem respostas, tentem resolver problemas. Também é importante adaptar-se a mudanças, que são muito comuns e rápidas na indústria da tecnologia, além de ter resiliência e flexibilidade.

M&M — Como a empresa vem efetivamente trabalhando as questões de diversidade e inclusão?
Francine — Diversidade e inclusão sempre foram e sempre serão parte muito forte da nossa cultura. Estão no nosso DNA. E a diversificação é um grande foco nosso na hora de contratar. Nossa filosofia é permitir que qualquer pessoa, de qualquer lugar, trabalhe para o Twitter. É um desejo global, operar de forma mais eficaz, com mais flexibilidade, com pessoas trabalhando de onde houver conexão. No ano passado, ampliamos nossas metas de representatividade e inclusão. Nossos grupos de afinidade também cresceram muito durante a pandemia, e promovemos sessões exclusivas para funcionários sobre como combater o racismo sistêmico, por exemplo. Temos ainda um painel interno que qualquer funcionário pode acompanhar — e nos cobrar — sobre a evolução de nossas metas de diversidade, dividido por gênero, raça e filtros como liderança ou tecnologia. Outro ponto importante são os treinamentos obrigatórios para todos que começam a trabalhar aqui, do estagiário ao mais alto escalão. Os temas são “conversas saudáveis”, “micro-agressões (palavras importam)” e “como se tornar um aliado de um dos grupos de afinidade, mesmo que você não seja um deles”.

M&M — Como você vê os líderes do futuro? Quais serão suas principais competências e seus maiores diferenciais?
Francine — Independentemente de presente ou futuro, a liderança é o principal motor que inspira e engaja os times. Aqui no Twitter, temos três pilares fundamentais para os líderes: suportar o crescimento do time, sabendo cobrir eventuais lacunas; abrir espaço para o funcionário causar impacto com seu trabalho; e demonstrar empatia e humanidade, para que os funcionários mantenham uma boa saúde mental. Saúde mental é um tema que precisa estar na agenda das nossas lideranças como diversidade, inclusão e sustentabilidade.

M&M — Quais são os desafios da empresa em relação a formar essas lideranças?
Francine — Nosso maior desafio hoje é formar líderes que sejam capazes de gerenciar o negócio de forma diversificada, inclusiva, descentralizada, qualquer que seja a posição de liderança em que estejam, do gerente mais júnior à alta liderança.

M&M — Depois de viverem a pandemia, o que as pessoas vão esperar das empresas e de seus líderes no futuro do trabalho?
Francine —
Que demonstrem mais colaboração e capacidade de adaptação, as mesmas coisas que esperamos deles. Virou realmente uma via de duas mãos. O momento pede diferentes cabeças e diferentes habilidades para resolver problemas cada vez mais complexos. Estamos vivendo uma grande oportunidade para aprender e desaprender juntos, rasgar manuais antigos, reescrever certos capítulos.

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