Remoto e criativo: um panorama da produtividade

Pesquisa global da plataforma norte-americana Float aponta home office como prática favorita entre os profissionais e indica que o gerenciamento do tempo deve ser prioridade para os indivíduos e para as empresas

Taís Farias Ribeiro

22 de março de 2021

A produtividade, um dos mais almejados e ao mesmo tempo controversos conceitos do universo do trabalho, ganhou novos contornos em 2020 junto às transformações trazidas pela pandemia da Covid-19 e o avanço do home office. Para entender esse cenário e traçar um panorama sobre o trabalho nas agências de publicidade, a plataforma norte-americana Float ouviu profissionais atuantes em mais de 200 empresas da área em todo mundo e compilou seus resultados no Global Agency Productivity Report.

A primeira constatação é que, apesar do início da vacinação contra a Covid-19, a realidade de boa parte das agências ainda é o home office. Segundo o estudo, nos próximos seis meses pelo menos, 43% das agências continuarão operando de forma totalmente remota, 36% vão aderir ao conceito de remote first, em que os funcionários podem trabalhar à distância seu período integral ou escolher ir ao escritório quando for necessário. Já 15% farão a transição para uma política parcialmente remota, na qual os funcionários precisam ir aos seus postos de trabalho físicos dois ou três dias da semana e mantêm o home office nos demais.

Apesar de muitas decisões ainda estarem envoltas pelas incertezas trazidas pelo momento, os criativos já demonstram suas preferências. No estudo, os modelos de trabalho remote first e parcialmente remoto foram apontados como os ideais para 81% dos funcionários de agências. Existe ainda uma parcela de 17% que deseja que suas agências se tornem totalmente remotas.

Para Nohoa Arcanjo, da Creators.llc, uma das chaves para a produtividade no home office é entender a comunicação como assíncrona (crédito: Paulo Liebert)

Já quando são consideradas as opiniões de donos, sócios e diretores de agências é possível notar alguma resistência: 15% preferem uma política de trabalho remoto limitada ou nenhuma possibilidade de atuação fora das sedes físicas. Outra observação possível a partir dos dados da pesquisa é de que, quanto maior a agência, mais disposta ela se mostra a aderir ao home office.

“O trabalho remoto veio para ficar. E para que ele seja o modo mais produtivo para as equipes, as agências precisam definir uma política de trabalho clara e estabelecer operações remote first, promover comunicação assíncrona e mais períodos de trabalho ininterruptos — menos reuniões vão ajudar nisso. O gerenciamento do tempo precisa ser uma prioridade tanto no nível organizacional, quanto individual”, afirma Siobhan Hayes, líder de marketing da Float, plataforma responsável pela pesquisa.

Diretrizes transparentes

Desde o início de 2019, a agência digital Live trabalha com o modelo de “anywhere-office”, em que os colaboradores são livres para decidir o melhor lugar para executar seu trabalho. Para que isso fosse possível, a empresa criou uma política que inclui diretrizes como gestão transparente e compartilhamento de informações. Entre as orientações práticas, a Live recomenda, por exemplo, que reuniões durem no máximo 45 minutos e que seus funcionários bloqueiem suas agendas para atividades do dia-a-dia, assim como compromissos pessoais. Em contrapartida, os profissionais precisam estar sempre disponíveis na plataforma de mensagens usada pela empresa. “Num modelo remoto, o corpo de gestores precisa ser treinado para ouvir mais e saber o momento certo de atuar. E, claro, os processos e as metodologias precisam estar integrados a isso, para que tudo funcione. Fora todo o uso de tecnologia e ferramentas de gestão”, ilustra Lucas Mello, CEO e CCO da Live.

A preferência demonstrada pelos regimes que incluem o trabalho à distância pode estar relacionada à liberdade e bem-estar proporcionados aos colaboradores. No estudo da Float, 50% dos funcionários ouvidos admitiram se sentir mais saudáveis trabalhando de maneira remota. No entanto, o contraponto vem com as horas trabalhadas: 66% dos entrevistados afirmam que trabalham mais horas remotamente do que no escritório. Eles também narram um aumento no número de reuniões e dificuldade de se desconectar do trabalho para ter momentos de ócio ou lazer, motivos campeões entre os causadores das horas extras.

O aumento no número de reuniões traz uma reflexão sobre o desempenho da comunicação entre os times no trabalho remoto. No estudo, 36% disseram que a comunicação e colaboração geral de sua equipe melhorou, 44% acreditam ter mantido o mesmo patamar, e 27% apontaram uma piora no cenário. O home office levou as agências a adotar aplicativos de mensagem ao vivo. A maioria das empresas (76%) agora usa o Slack ou o Microsoft Teams para se comunicar durante o dia, um aumento de 31% em relação a 2019.

Para Nohoa Arcanjo, co-fundadora e growth leader da Creators.llc., plataforma de contratação de criativos sob demanda, uma das chaves para a produtividade no home office é entender a comunicação como assíncrona, já que nem todos os profissionais estarão disponíveis e focados ao mesmo tempo. “Muitas vezes não conseguimos alinhar nossas tarefas com as rotinas de outros colegas de trabalho. E isso não é ruim ou improdutivo, são apenas espaços-tempo diferentes, que podem ser alinhados de forma assíncrona, com reuniões periódicas, com pautas definidas, e um cronograma claro de entregas. Assim todos conseguem se organizar, à sua maneira, para cumprir o calendário macro e atender as expectativas, sem mensagens de trabalho pipocando toda hora no Whatsapp nos fazendo perder o foco a todo o momento”, aponta a executiva.

Quebra de formalidades

A pesquisa também considerou a capacidade dos profissionais de agência de ter momentos de trabalho profundo, em que é possível se concentrar em uma tarefa sem interrupções. De acordo com os resultados, 69% dos entrevistados dizem que alcançam pelo menos quatro horas de trabalho profundo por dia, enquanto no escritório essa média se aproximava de duas horas.

O levantamento pediu que os entrevistados avaliassem o desempenho de suas agências em entregar projetos de maneira remota, no que diz respeito a tempo, orçamento e escopo de trabalho. A análise foi positiva: 73% dos profissionais classificaram sua capacidade de entrega como acima da média. Quando o assunto é relacionamentos com os clientes, 63% acreditam que eles permaneceram basicamente iguais, enquanto 21% apontaram que houve melhora à distância.

Robson Ortiz, CEO da Mirum, agência apontada nos quatro últimos rankings Great Place To Work como a melhor para se trabalhar no Brasil, e que vai adotar um modelo híbrido de trabalho daqui para frente, aponta que a dinâmica estabelecida pelo home office permitiu uma aproximação dos clientes. “O formato online de reuniões, de certa forma, quebrou algumas formalidades, pois se tinham alguma limitação física por conta da sala de reunião, custos com locomoção, etc, agora, podem ter toda a equipe. Além disso, como trabalhamos com metodologias ágeis, ficou muito mais fácil incluir os clientes nas sessões de planejamento e revisões diárias e semanais das tarefas, fazendo com que a entrega ganhasse em qualidade, agilidade e valor”, diz o CEO.

 

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