Trabalho estereotipado

Da falta de espaço para a emoção à glamorização do propósito

Alexandre Zaghi Lemos

22 de março de 2021

O quadro Operários, pintado em 1933 por Tarsila do Amaral, é um clássico da representação do trabalho no início do século passado: mecânico e sem espaço para a emoção. A antítese do que, se espera, seja a realidade no futuro. Ao longo da história, o trabalho aparece estereotipado em expressões culturais, como fonte enobrecedora de conquistas e realizações, caminho para ascensão social e, ainda, como “um mundo à parte”, que não se mistura com a vida pessoal dos personagens retratados. Como forma de complementar a pesquisa “Futuro do Trabalho 2021 – Uma Visão Pós-Pandemia”, estudo proprietário de Meio & Mensagem, a consultoria Wiz&Watcher analisou como as produções culturais retratam o trabalho ao longo do tempo para interpretar a construção desse conceito no passado e quais discussões atuais apontam caminhos para o futuro.

Através de ferramentas e métodos proprietários, a Wiz&Watcher coletou 57 milhões de expressões culturais nos últimos seis meses, através de pesquisas em redes sociais e outros ambientes nos quais se discute a produção cultural. O trabalho é o terceiro tema de maior destaque no período, com 680 mil menções divididas pela empresa em três eixos: o olhar individual sobre o trabalho (25%), o impacto do trabalho nas relações interpessoais (12%) e os ambientes e sistemas em que o trabalho é executado (62%). “Nesse conjunto imenso de menções, encontramos 135 mil que relacionam trabalho e propósito. Durante a pandemia, as pessoas começaram a se questionar muito se estão no trabalho que gostariam de estar”, conta Cintia Gonçalves, fundadora da Wiz&Watcher. Por outro lado, ela faz uma ressalva: “Um ponto importante a observar é a dissonância entre a glamorização do propósito e a realidade do Brasil, com seus mais de 13 milhões de desempregados e as pessoas orando para conseguir trabalho. Para o brasileiro, primeiro é preciso se sustentar para só depois entrar neste segundo nível de discussão”.

Na conclusão da equipe liderada por ela, há quatro discussões principais sobre trabalho que se destacam na produção cultural neste momento: os conflitos e reflexões sobre a linha tênue entre trabalho e vida pessoal, como retratado na novela A Dona do Pedaço, da Globo; o feminino e o trabalho, tema da novela Fina Estampa, reprisada pela Globo no ano passado; a revisão do papel social do trabalho, com ética e sustentabilidade ganhando protagonismo na estrada que leva ao futuro, conceito com o qual está sintonizado o documentário “Down to Earth with Zac Efron”, da Netflix, que busca uma mudança de mentalidade em relação à forma como devemos usar a energia e aproveitar os recursos naturais; e a questão do propósito, expressa nos questionamentos existenciais da animação Soul, da Disney.

O estudo salienta que o contexto atual impactado pela pandemia ainda é pouco refletido na produção cultural, pois é preciso de tempo para que apareça na teledramaturgia, nas séries ou no cinema.

Em Operários, o trabalho mecânico e sem emoção de ontem; em A Dona do Pedaço, a labuta que enobrece hoje; e na capa da The New Yorker, as incertezas sobre o futuro (crédito: reprodução)

Compartilhe

Publicidade