Meio&Mensagem

Pluralidade que fortalece os negócios

Agências mudam prioridades para contratar e manter talentos, focam em diversidade inclusiva e abraçam a experiência do funcionário, onde o bem-estar dos colaboradores é pauta prioritária das lideranças

Débora Yuri

22 de março de 2021

Esperança e otimismo. Esses são os dois sentimentos que mais vêm à cabeça das pessoas quando incitadas a pensar no futuro do trabalho, com índices de citação de 61% e 55%, respectivamente. Em contrapartida, 35% mencionam incerteza e 33%, ansiedade. Entre os dois extremos, aparecem curiosidade (48%) e confiança (47%). A pressão por resultados imediatos, que impacta a qualidade de vida e a alta competitividade, com muitas pessoas lutando pelas mesmas oportunidades, são as maiores preocupações. Adicionalmente, a falta de estabilidade e a substituição de algumas capacidades humanas pela tecnologia também geram aflição. Nesse cenário previsto, o sucesso será alcançado pelos profissionais que valorizarem o conhecimento, mostrarem na empatia sua principal competência comportamental, tiverem força de vontade, coragem e aplicação, e forem criativas e inovadoras.

Os dados são da etapa quantitativa da pesquisa “Futuro do Trabalho 2021 – Uma Visão Pós-Pandemia”, que entrevistou em fevereiro, de forma online, 350 pessoas economicamente ativas, de 18 a 60 anos, de ambos os sexos (50% mulheres, 50% homens), das classes A (6%), B (36%) e C (58%), moradoras de São Paulo. O estudo proprietário de Meio & Mensagem é realizado em conjunto com Cintia Gonçalves, fundadora da consultoria Wiz&Watcher, e Diego Selistre, head de pesquisa e estratégia da Chazz. Neste ano, o projeto conta também com a colaboração de Alexandre Catelan e Pierre Cohen, sócios da empresa de insights e analytics Provokers. Com o objetivo de analisar o impacto da pandemia nos modelos de trabalho, nas relações profissionais, em novas políticas e iniciativas das empresas e no perfil dos líderes do futuro, houve também uma etapa qualitativa, na qual foram realizados grupos de discussão por videoconferência em dezembro de 2020, com pessoas das classes A, B e C, incluindo trabalhadores de 20 a 30 anos, gestores de 35 a 45 anos e empreendedores de 20 a 45 anos.

Embora os pesquisados não sejam exclusivamente profissionais atuantes na indústria de comunicação, algumas das conclusões gerais podem ser reconhecidas como novas diretrizes do mercado, como a de que produtividade pode acontecer em qualquer lugar, desde que seja um ambiente saudável, e a de que as pessoas querem um mix de trabalho presencial e virtual, ou a liberdade de escolha entre os dois modelos. A saúde mental será uma prioridade para os profissionais, os líderes e as empresas do futuro, que precisarão olhar para o lado humano das pessoas, zelar por ambientes saudáveis e pela sustentabilidade do planeta.

Mistura superpoderosa

No mercado publicitário, a crise sanitária estimulou transformações que vão do recrutamento de talentos e processos do dia a dia ao papel das lideranças e relacionamento com os clientes. Desenvolver “soft skills” tornou-se exigência geral. “Os limites mudaram e as prioridades de contratação também”, diz Annelize Conti, diretora de estratégia da Mutato. “É essencial a pessoa se comunicar bem virtualmente, de forma sempre efetiva, por meio de todas as ferramentas exigidas.”

Nascida como uma startup do Grupo WPP no Brasil, em 2012, a Mutato tem hoje as cinco regiões do País representadas em seu quadro funcional. Segundo o último censo, 61% da equipe são mulheres; 38%, autodeclarados LGBTQIAP+s; e 35%, negros. Na alta e na média liderança, elas formam a maioria (57% e 68%, respectivamente). Para 2021, as metas incluem aumentar em 10% o percentual de profissionais negros na primeira e em 4% o de mulheres negras na segunda.

Líder do grupo de afinidade LGBTQUIAP+ no Comitê de Diversidade da agência, Annelize chama essa mistura de “superpoderes”. “Origens e vivências diferentes agregam outros pontos de vista e perspectivas, e pluralidade de visões para os negócios fortalece a empresa”, afirma ela, que vê benefícios em vários âmbitos. “Para os clientes, nosso foco é conectar marcas com consumidores. A diversidade nas equipes nos coloca mais próximos das diversas realidades existentes no Brasil, e é isso que traz sucesso a qualquer campanha.”

Pioneira no País no desenvolvimento de uma iniciativa pró-equidade racial, a Wunderman Thompson — na época, J. Walter Thompson, posteriormente integrada à Wunderman — lançou o programa 20/20 em 2017. A meta de ter ao menos 20% dos cargos estratégicos da agência ocupados por negros em 2020 foi superada: hoje eles são 25,2%, trabalhando nas áreas de criação, planejamento, atendimento e mídia. O programa virou referência, e a WT também exibe índices positivos de D&I relacionados a outro grupo, o das mulheres. Atualmente, 62,1% dos postos de liderança pertencem a elas, que são, ainda, maioria no board. “Nosso objetivo é representar a população brasileira e causar impacto positivo na indústria inteira”, diz a chief strategy officer Stella Pirani. “Estamos, inclusive, trabalhando para acelerar a pluralidade com alguns clientes avançados no assunto, como Coca-Cola e Avon, junto de seus Comitês de Diversidade.” Ela observa ainda que a pandemia promoveu uma aproximação benéfica entre agências e clientes. “Vivenciamos um senso expandido de comunidade, aprendemos o que é ser parte de uma no prédio, no bairro, no trabalho. E pensar na saúde mental do time virou uma atribuição dos líderes.”

Avaliação semelhante faz Fernanda Coelho, chief talent officer do Publicis Groupe no Brasil. Para a holding, a Covid-19 levou a indústria da era do “user experience” para a do “employee experience”, em que o trabalhador está no centro. “O bem-estar dos colaboradores precisa estar na pauta das lideranças, que devem criar relações de confiança, ter flexibilidade, entender esse mundo novo e se adaptar, porque nós não vamos voltar ao que éramos”, diz Fernanda. “Essas questões relevantes que surgiram com a crise não podem ser temporárias, têm de ser incorporadas pelas organizações.”

Ampliar o alcance geográfico no recrutamento foi outra vantagem permitida pelo trabalho remoto. “Ficávamos muito restritos a São Paulo, mas quebramos essa barreira durante a pandemia. Contratamos gente do Rio, de Minas, do Sul”, acrescenta.

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